Banco de Moçambique alerta para inflação de dois dígitos e admite agravamento da crise económica

Depois de vários meses de relativa estabilidade dos preços, o Banco de Moçambique admite que a economia moçambicana poderá enfrentar, num horizonte de curto prazo, um novo ciclo de forte pressão inflacionista. A instituição alerta que a inflação poderá atingir níveis de dois dígitos, impulsionada sobretudo pela crise dos combustíveis, pelo agravamento das dificuldades fiscais…
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Banco central moçambicano admite que o país poderá entrar, nos próximos meses, num novo ciclo de forte pressão inflacionista, impulsionado pela crise dos combustíveis, pelo agravamento da dívida pública e pelos impactos persistentes das cheias.
Economia

Depois de vários meses de relativa estabilidade dos preços, o Banco de Moçambique admite que a economia moçambicana poderá enfrentar, num horizonte de curto prazo, um novo ciclo de forte pressão inflacionista. A instituição alerta que a inflação poderá atingir níveis de dois dígitos, impulsionada sobretudo pela crise dos combustíveis, pelo agravamento das dificuldades fiscais do Estado e pelos efeitos persistentes das cheias que afectaram o país no início do ano.

Em Abril, a inflação anual fixou-se em 4,4%, mas o governador do banco central, Rogério Zandamela, reconheceu esta Segunda-feira, 25 de Maio, que o actual contexto económico e geopolítico deteriorou significativamente as perspectivas macroeconómicas do país. “A inflação poderá atingir dois dígitos no curto prazo”, avisou, após uma das mais longas sessões do Comité de Política Monetária da última década, marcada pela discussão dos riscos crescentes que ameaçam a estabilidade financeira nacional.

No centro das preocupações está o recente aumento dos preços dos combustíveis, agravado pela guerra no Médio Oriente e pelos constrangimentos na cadeia internacional de abastecimento. Para o banco central, os impactos vão muito além do aumento directo dos preços nas bombas: afectam os custos de produção, a logística, o transporte e a actividade empresarial em praticamente todos os sectores da economia.

A situação é agravada pela escassez de combustíveis registada em vários pontos do país, fenómeno que já começa a condicionar operações empresariais e a pressionar ainda mais os preços dos bens e serviços. Segundo Zandamela, os efeitos indirectos desta crise poderão revelar-se particularmente severos numa economia ainda fragilizada pela lenta recuperação após as cheias.

“O ritmo de reposição da economia tem sido bastante lento”, reconheceu o governador, apontando igualmente os atrasos do Estado no pagamento da dívida pública interna e externa como outro foco relevante de preocupação para os mercados.

Desde Dezembro de 2025, a dívida pública interna aumentou em cerca de 18,5 mil milhões de meticais (cerca de 286,9 milhões de dólares), ultrapassando os 493 mil milhões de meticais (7,6 mil milhões de dólares). Para o governador, os sucessivos atrasos nos pagamentos estão a deteriorar a confiança dos investidores e das instituições financeiras, reduzindo a apetência pelos títulos do Estado e pressionando o funcionamento do mercado monetário.

“Persistem os atrasos no pagamento da dívida pública, interna e externa, incluindo com instituições financeiras nacionais e credores multilaterais, com impactos na fraca apetência pelos títulos públicos, na rigidez das taxas de juro e na avaliação do risco do país”, afirmou.

A leitura do banco central sugere que o Estado enfrenta crescentes dificuldades de tesouraria, numa altura em que a pressão sobre as contas públicas aumenta e o espaço fiscal continua limitado. O efeito prático já começa a sentir-se na economia: investidores mais cautelosos, menor liquidez e custos de financiamento persistentemente elevados.

Questionado sobre uma eventual relação entre a crise de combustíveis e alegadas dificuldades dos bancos comerciais em emitirem garantias às gasolineiras para importação de produtos, Zandamela rejeitou essa interpretação. Segundo explicou, os bancos continuam a priorizar operações ligadas ao sector energético, mas algumas empresas enfrentam limitações financeiras próprias.

“Há gasolineiras que estão abaixo dos limites das garantias e outras que estão falidas ou quebradas. Temos informação e dados sobre isso”, afirmou, afastando responsabilidades do sistema financeiro na escassez actualmente registada.

O governador admitiu ainda que, caso os riscos internacionais se agravem, sobretudo devido à evolução da guerra no Médio Oriente, o banco central poderá voltar a subir a taxa de juro de referência. Segundo explicou, as decisões futuras dependerão da evolução das pressões inflacionistas e da liquidez existente no mercado.

“Se os riscos prevalecerem, a taxa de juro vai aumentar”, advertiu, lembrando que o banco central já agravou recentemente as reservas obrigatórias para absorver o excesso de liquidez no sistema financeiro.

Regulador não altera Taxa MIMO

Ainda assim, o Comité de Política Monetária decidiu manter a taxa MIMO em 9,25%, justificando a decisão com a necessidade de acompanhar a evolução das incertezas externas e internas antes de adoptar novas medidas restritivas.

Outro tema sensível abordado pelo governador do banco central moçambicano foi a recente liquidação de cerca de 700 milhões de dólares junto do Fundo Monetário Internacional (FMI), decisão criticada em alguns sectores do país devido às actuais dificuldades económicas. O governador rejeitou, contudo, qualquer cenário de fragilidade cambial ou vulnerabilidade externa da instituição que lidera.

“Temos reservas suficientes para cinco meses de importações. O Banco de Moçambique não ficou vulnerável por causa dessa decisão”, assegurou.

Numa análise particularmente dura sobre o ambiente empresarial, Rogério Zandamela reconheceu que parte da retracção do crédito resulta também da deterioração financeira de muitas empresas, sobretudo após o período de tensão social e manifestações pós-eleitorais. Segundo disse, há instituições com liquidez disponível, mas sem clientes com capacidade financeira para absorver crédito. “Os bancos não vão emprestar a quem não tem capacidade de pagar”, avisouu.

O discurso do governador revela um banco central cada vez mais preocupado com a combinação entre choques externos, fragilidade fiscal e desaceleração económica interna, um cenário que ameaça inverter os ganhos de estabilização alcançados nos últimos meses e recoloca Moçambique perante o risco de uma nova espiral inflacionista.

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