O vice-presidente da International Finance Corporation (IFC), Ethiopis Tafara , destacou o potencial económico dos países africanos de língua portuguesa e apelou ao reforço da cooperação regional, da mobilização de capital privado e da concretização de investimentos capazes de gerar empregos e promover um crescimento inclusivo.
Ao discursar na abertura da segunda edição do Fórum de Investimento da África Lusófona, realizada na ilha do Sal, em Cabo Verde, o responsável sublinhou que a continuidade do encontro demonstra o compromisso do Grupo Banco Mundial, em particular da IFC, com o desenvolvimento económico dos mercados africanos de língua portuguesa.
“Esta segunda edição envia uma mensagem clara: o Grupo Banco Mundial, e a IFC em particular, está comprometido com a África lusófona. Estamos aqui para o longo prazo”, afirmou.
Tafara recordou que a primeira edição do fórum reuniu mais de 220 participantes e considerou que a realização de um segundo encontro confirma o interesse crescente nas oportunidades de investimento existentes nestes mercados.
O responsável agradeceu ao Governo de Cabo Verde pelo acolhimento do evento e pelo papel do país na promoção do diálogo e da cooperação entre as economias africanas de língua portuguesa.
Na ocasião, felicitou igualmente a presidente em exercício da República de Cabo Verde pela sua eleição para a presidência da Assembleia Nacional, destacando a importância histórica da chegada de uma mulher ao cargo e o significado deste marco para a liderança feminina em África.
Integração regional como motor do investimento
Para o vice-presidente da IFC, a proximidade histórica e linguística entre os países africanos de língua portuguesa deve ser acompanhada por uma maior integração económica, capaz de transformar mercados nacionais fragmentados em espaços económicos interligados.
O fórum reúne representantes de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial, seis países que, em conjunto, representam um mercado próximo de 80 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) anual estimado em cerca de 164 mil milhões de dólares.
Segundo Tafara, estas economias apresentam diferenças em dimensão, estrutura produtiva e nível de desenvolvimento, mas possuem vantagens complementares que podem ser aproveitadas para estimular o comércio, atrair investimento e desenvolver cadeias de valor regionais.
Angola e Moçambique, salientou, ocupam posições estratégicas em importantes corredores de transporte e funcionam como portas de acesso a mercados de países sem litoral, abrangendo dez países e mais de 100 milhões de pessoas.
Por sua vez, Cabo Verde e os países do Golfo da Guiné beneficiam de posições estratégicas no Atlântico, recursos naturais, potencial agrícola, oportunidades energéticas e condições favoráveis ao desenvolvimento do turismo.
“Conectadas, estas seis economias contam uma história muito diferente daquela que contam individualmente”, observou, defendendo que a integração dos mercados pode ampliar as oportunidades de negócio e tornar os investimentos mais atrativos.
Corredores económicos e energia no centro da estratégia
Sob o lema “Desbloquear corredores, desenvolver o agronegócio e impulsionar o turismo sustentável”, a segunda edição do fórum procura aproximar governos, investidores, instituições financeiras e empresas em torno de sectores considerados fundamentais para o crescimento económico.
Ao abordar os corredores económicos, Tafara destacou a importância dos portos, aeroportos, estradas, caminhos de ferro, redes de energia e infraestruturas digitais para facilitar a circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capitais.
Na sua perspetiva, as infraestruturas físicas e digitais devem ser desenvolvidas de forma complementar, uma vez que ambas contribuem para aumentar a produtividade das empresas, facilitar o acesso ao financiamento e aproximar os produtores dos mercados.
O responsável defendeu que os corredores económicos não devem ser vistos apenas como projectos de transporte, mas como instrumentos para dinamizar a actividade produtiva, estimular a transformação industrial e criar empregos ao longo das rotas comerciais.
No domínio energético, destacou a apresentação dos Pactos Nacionais de Energia de Cabo Verde e da Guiné-Bissau durante o fórum, considerando-os instrumentos importantes para orientar os investimentos necessários à expansão do acesso à electricidade.
Estas iniciativas estão alinhadas com a Missão 300, programa do Grupo Banco Mundial e do Banco Africano de Desenvolvimento que pretende ligar 300 milhões de pessoas na África Subsaariana à electricidade até 2030.
Tafara referiu ainda que Angola e Moçambique dispõem, em conjunto, de quase nove gigawatts de capacidade instalada de produção de energia eléctrica, incluindo aproximadamente seis gigawatts de energia hidroeléctrica.
Na sua avaliação, o reforço da geração, transmissão e interligação regional de energia poderá apoiar a indústria transformadora, o processamento de matérias-primas e o desenvolvimento de cadeias de valor entre os países.
Agronegócio como fonte de emprego e criação de valor
A agricultura foi igualmente apontada como um dos pilares do desenvolvimento económico da África lusófona, sobretudo em países onde uma parte significativa da população activa depende deste sector para a sua subsistência.
Para Tafara, o desafio consiste em ultrapassar uma economia centrada na produção e comercialização de matérias-primas, avançando para actividades de maior valor acrescentado, como o processamento de alimentos, a armazenagem, a distribuição e a criação de empresas agroindustriais.
O responsável destacou a necessidade de investir em cadeias de frio, logística, tecnologia, financiamento e mecanismos que aproximem os agricultores dos mercados consumidores.
Neste contexto, referiu a iniciativa AgriConnect, que procura reunir governos, produtores, empresas e investidores para acelerar a transformação dos sistemas agroalimentares.
Em Angola, o Pacto AgriConnect, recentemente lançado, estabelece como objectivos a criação de até 700 mil empregos e a mobilização de até 1,45 mil milhões de dólares em financiamento público e privado até 2030.
Tafara apontou também exemplos de desenvolvimento de cadeias de valor locais, desde a transformação integrada de alimentos em Angola e Moçambique até à produção de caju na Guiné-Bissau e de cacau em São Tomé e Príncipe.
Empresas como Carrinho, Inalca, Merec, Arrey e Casa Mendes Gonçalves foram mencionadas como exemplos de iniciativas empresariais relevantes para esta transformação.
Segundo o responsável, a evolução da agricultura para o agronegócio pode converter actividades de subsistência em empresas produtivas, capazes de gerar rendimento, contratar trabalhadores e contribuir para o desenvolvimento das comunidades rurais.
Turismo sustentável para ampliar os benefícios económicos
O turismo constitui o terceiro eixo prioritário do fórum. Tafara considerou que o sector tem capacidade para impulsionar o emprego, desenvolver competências profissionais e promover a inclusão económica.
Apesar da riqueza natural, histórica e cultural do continente africano, o responsável observou que África representa apenas cerca de 5% das chegadas internacionais de turistas.
Em 2024, o continente recebeu aproximadamente 74 milhões de visitantes internacionais, um número que, segundo o discurso, evidencia a margem existente para aumentar a participação africana no mercado turístico mundial.
Para aproveitar esse potencial, defendeu uma estratégia que permita reter uma maior parcela das receitas turísticas nas economias locais, reforçar as cadeias de abastecimento nacionais e proteger os recursos naturais e culturais que atraem os visitantes.
O fórum deverá analisar experiências de conservação e turismo comunitário, incluindo as desenvolvidas pelo Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, pela HBD na ilha do Príncipe e por organizações de conservação que operam na África Austral.
Cabo Verde foi igualmente apresentado como uma referência na colaboração com marcas hoteleiras internacionais, demonstrando o potencial das parcerias privadas para desenvolver a actividade turística.
Na perspectiva de Tafara, a ligação entre turismo, agricultura, energia e infraestruturas pode ampliar os benefícios económicos do sector, criando oportunidades para agricultores, fornecedores, transportadores, pequenos empresários e comunidades locais.
IFC reafirma compromisso com a África lusófona
No discurso, o vice-presidente da IFC revelou que a instituição investiu aproximadamente 1,2 mil milhões de dólares na África lusófona ao longo dos cinco anos anteriores.
A instituição pretende continuar a ampliar a sua intervenção nos mercados da região, através do financiamento directo de empresas e projectos, da estruturação de investimentos, da promoção de parcerias público-privadas e da mobilização de capital de outros investidores.
A IFC trabalha igualmente com instituições financeiras locais para facilitar o acesso das empresas ao financiamento. Em articulação com o Banco Mundial e a Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (MIGA), pode combinar reformas de políticas públicas, capital, garantias e instrumentos de seguro contra riscos políticos para apoiar projectos privados.
Contudo, Tafara alertou que a atracção de investimento exige mais do que a apresentação de oportunidades. Os investidores procuram regras previsíveis, parceiros credíveis, infraestruturas fiáveis, projectos financeiramente viáveis e um ambiente de negócios favorável.
Embora tenha reconhecido os esforços de vários governos na melhoria da gestão macroeconómica e na abertura de sectores à participação privada, defendeu a continuidade e o aprofundamento das reformas.
Para o responsável, o verdadeiro impacto das reformas mede-se pela sua implementação efectiva, e não apenas pelos anúncios feitos pelos governos.
Do diálogo à concretização de projectos
Na parte final da sua intervenção, Tafara apelou aos participantes para que aproveitem o encontro para estabelecer parcerias concretas, tomar decisões de investimento e transformar as discussões em projectos com resultados mensuráveis.
O responsável defendeu que o sucesso do fórum deverá ser avaliado pelos benefícios efectivos para as populações, nomeadamente agricultores que conseguem alcançar novos mercados, empresas que aumentam o número de trabalhadores e empreendedores que passam a vender os seus produtos além-fronteiras.
“Quando nos voltarmos a reunir, devemos medir o nosso progresso por aquilo que as pessoas conseguem ver e sentir”, afirmou.
Para Tafara, a língua comum, a posição geográfica estratégica e o potencial das novas gerações constituem factores que podem ajudar os países africanos de língua portuguesa a construir uma plataforma mais integrada de investimento e desenvolvimento.
“Oceans that once connected these countries through history can connect them again through opportunity”, declarou, defendendo que os oceanos que historicamente ligaram estes países podem voltar a aproximá-los através de novas oportunidades económicas.
O vice-presidente da IFC concluiu que a principal tarefa dos governos, investidores e parceiros de desenvolvimento consiste em construir pontes entre os recursos e as capacidades existentes nas economias da região e as oportunidades que as suas populações podem alcançar.
O objectivo final, sublinhou, deverá ser transformar essas oportunidades em empresas sustentáveis, crescimento inclusivo e, acima de tudo, empregos.
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