Moçambique precisa de transformar a sua posição geográfica estratégica em produção nacional, emprego e desenvolvimento económico, em vez de continuar a depender sobretudo da circulação de mercadorias e da exportação de recursos naturais. O alerta foi deixado pelo ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Cripton Valá, ao apresentar a visão do Governo para os corredores de desenvolvimento do país, durante o Fórum de Investimento da África Lusófona, na Ilha do Sal, em Cabo Verde.
“Um corredor não vale apenas pelo que passa. Vale pelo que fica”, afirmou Valá, sintetizando o desafio de converter os portos, as estradas e as linhas ferroviárias de Moçambique em instrumentos de industrialização, diversificação económica e criação de oportunidades para as empresas nacionais.
A intervenção colocou em evidência um dos principais dilemas da economia moçambicana: apesar do crescimento do investimento estrangeiro e da expansão da actividade portuária, os benefícios destes fluxos ainda não se reflectem suficientemente na diversificação produtiva e na criação de emprego formal.
Para o ministro, a competitividade do país depende da capacidade de articular infra-estruturas, investimento privado, instituições e produção nacional.
“A competitividade não se herda. Constrói-se”, sublinhou.
Investimento cresce, mas continua concentrado
Um dos principais alertas de Valá diz respeito à composição do investimento estrangeiro em Moçambique. Segundo os dados apresentados pelo governante, o país recebeu cerca de 5,6 mil milhões de dólares em investimento directo estrangeiro em 2025, um aumento de aproximadamente 60% face ao ano anterior.
Contudo, 91,5% desse investimento foi destinado à indústria extractiva, enquanto apenas 2,1% seguiu para a indústria transformadora.
A disparidade evidencia o desafio de converter a entrada de capital em capacidade industrial, emprego e oportunidades para outros sectores da economia.
O ministro chamou também a atenção para a fragilidade da estrutura exportadora nacional, referindo que, excluindo os grandes projectos, as exportações moçambicanas cobrem apenas 22% das importações.
O alerta é particularmente relevante num país que procura aproveitar os recursos minerais e energéticos sem comprometer a construção de uma economia mais diversificada.
A prioridade, defendeu Valá, passa por ampliar o investimento na agricultura, no agro-processamento, na indústria transformadora, na logística e nos serviços, criando ligações entre os grandes projectos e o tecido empresarial nacional.
Cerca de 500 mil jovens enfrentam um mercado de trabalho limitado
O emprego constitui outro dos pontos críticos destacados pelo ministro. De acordo com os números apresentados no discurso, cerca de 500 mil jovens chegam anualmente ao mercado de trabalho, perante uma capacidade de criação de aproximadamente 25 mil empregos formais. O governante apontou ainda que cerca de 95% do emprego no país se encontra no sector informal.
A diferença entre a procura de trabalho e a oferta de emprego formal coloca pressão sobre a economia e reforça a necessidade de investimentos capazes de gerar oportunidades em maior escala.
“Um corredor que não cria oportunidades para quem vive ao seu lado é apenas uma passagem”, afirmou Valá.
A declaração reflecte a preocupação de que as grandes infra-estruturas e os investimentos de elevado valor não produzam benefícios suficientemente amplos para as comunidades, os trabalhadores e as empresas locais.
Na perspectiva do ministro, os corredores devem funcionar como plataformas para o desenvolvimento de fornecedores moçambicanos, a formação de quadros nacionais e a criação de actividades económicas em torno dos principais eixos de transporte.
Esta orientação pressupõe uma maior integração das micro, pequenas e médias empresas nas cadeias de fornecimento dos grandes investidores, bem como uma ligação mais efectiva entre o investimento público, o capital privado e a economia local.
Valá defendeu, neste contexto, uma relação de reciprocidade entre o Estado e os investidores, sustentando que os apoios públicos devem estar associados a compromissos concretos em matéria de emprego nacional, fornecedores locais e valor acrescentado no país.
Portos com capacidade por aproveitar e fronteiras que atrasam o comércio
Apesar dos progressos registados nas infra-estruturas, Moçambique enfrenta obstáculos que limitam o aproveitamento integral dos seus corredores logísticos.
Em 2025, os portos moçambicanos movimentaram cerca de 69 milhões de toneladas de carga, um crescimento de 43% face a 2021. O Porto de Maputo atingiu um recorde de 32 milhões de toneladas, enquanto o Porto da Beira aumentou a sua movimentação anual de 13,5 milhões para 17,5 milhões de toneladas em quatro anos.
Os resultados confirmam a importância dos portos para o comércio nacional e regional. No entanto, a capacidade disponível nem sempre corresponde à utilização efectiva.
O Porto de Nacala, por exemplo, tem capacidade para movimentar cerca de 10 milhões de toneladas por ano, mas registou aproximadamente 3,5 milhões de toneladas em 2024.
A situação ilustra a necessidade de atrair novos fluxos comerciais, desenvolver actividades produtivas e melhorar as ligações entre os portos, as regiões produtoras e os mercados internacionais.
Outro constrangimento prende-se com a demora nos procedimentos fronteiriços. Segundo Valá, ainda existem travessias que podem demorar mais de 24 horas, aumentando os custos de transporte e reduzindo a previsibilidade das operações comerciais.
“Um porto vale tanto quanto a estrada, a linha e a fronteira que o servem”, observou o ministro.
Para responder a estes desafios, Moçambique prevê avançar com postos de paragem única nas fronteiras de Ressano Garcia, Machipanda e Cassacatiza, além de reforçar a capacidade portuária e diversificar os meios de transporte de mercadorias.
A estratégia inclui ainda a expansão da cabotagem marítima, que passou de dois para oito navios e permitiu retirar da Estrada Nacional Número 1 o equivalente a cerca de 14 mil camiões, de acordo com os dados apresentados.
Corredores de desenvolvimento para além da mineração
A estratégia defendida por Valá assenta na transformação dos corredores de trânsito em plataformas de produção.
Na agricultura, o Governo pretende aumentar, até 2029, o número de infra-estruturas de agro-processamento de 18 para 101 e as unidades de armazenamento de 316 para 1.257, no âmbito do Programa Quinquenal do Governo 2025-2029.
A expansão destas infra-estruturas poderá ajudar a reduzir perdas agrícolas, melhorar a conservação dos produtos e facilitar o acesso dos produtores aos mercados.
“Os corredores que transportam carvão devem poder transportar também milho, açúcar e caju”, afirmou.
A mensagem aponta para a necessidade de diversificar os produtos que circulam nas redes logísticas nacionais e aumentar a participação da produção agrícola e industrial nas exportações.
Na indústria, o Governo pretende integrar zonas económicas especiais nos principais corredores, criando condições para atrair empresas, desenvolver fornecedores nacionais e estimular actividades de transformação.
A expansão da capacidade energética constitui outra prioridade, num contexto em que a disponibilidade de electricidade fiável e competitiva é fundamental para a industrialização.
A ambição é que as infra-estruturas deixem de servir apenas para escoar recursos naturais e passem também a sustentar novas actividades económicas, desde o processamento agrícola até à produção industrial orientada para os mercados regionais.
O clima acrescenta pressão sobre as infra-estruturas
Os desafios de competitividade são agravados pela vulnerabilidade do país aos fenómenos climáticos extremos.
Valá destacou que as cheias registadas em 2026 no Vale do Zambeze e na região Sul de Moçambique afectaram estradas, linhas e colheitas, demonstrando como os choques climáticos podem comprometer simultaneamente a produção e a circulação de mercadorias.
Para uma economia que pretende consolidar a sua posição como plataforma logística regional, a resiliência das infra-estruturas torna-se uma condição essencial para assegurar a continuidade das operações e proteger os investimentos.
A modernização dos corredores deverá, por isso, considerar não apenas a capacidade de transporte, mas também a resistência das infra-estruturas a eventos climáticos e a capacidade de recuperar rapidamente de interrupções.
Confiança, reformas e investimento privado
O ministro defendeu igualmente a importância de instituições capazes de oferecer previsibilidade aos investidores.
Entre os instrumentos de planificação referidos estão a Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044, o Programa Quinquenal do Governo 2025-2029 e o Programa Integrado de Investimento 2026-2030.
Valá destacou ainda a redução do tempo de licenciamento de empresas de três dias para um, como parte dos esforços para simplificar procedimentos administrativos.
No financiamento, apontou oportunidades associadas ao Fundo de Garantia Mutuária, ao futuro Banco de Desenvolvimento e ao quadro de parceria do Grupo Banco Mundial, estimado em cerca de 2,5 mil milhões de dólares.
A mensagem dirigida ao sector privado é que o país pretende combinar reformas institucionais, planeamento de longo prazo e parcerias financeiras para mobilizar investimento em áreas que contribuam para diversificar a economia.
Entre as oportunidades identificadas estão a concessão integrada do Porto de Nacala, o porto seco de Moatize, as operações ferroviárias, as zonas logísticas multimodais, o agro-processamento e as cadeias de frio.
O ministro destacou igualmente o projecto do Porto de Macuse, na província da Zambézia, como uma iniciativa orientada para reforçar a ligação entre a produção regional e os mercados.
O Plano de Recuperação e Crescimento Económico 2025-2029 estabeleceu a meta de mobilizar mil milhões de dólares em novo investimento fora do sector extractivo.
Uma plataforma lusófona para ligar os dois oceanos
Para além da agenda nacional, Valá propôs a criação de uma Plataforma Lusófona de Investimento em Corredores de Desenvolvimento, envolvendo os países parceiros, a Corporação Financeira Internacional (IFC) e a Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (MIGA).
A iniciativa pretende aproximar governos, investidores e financiadores, facilitar a preparação de projectos e promover a partilha de experiências entre os países africanos de língua portuguesa.
A proposta parte do potencial de complementaridade entre os corredores do Lobito, em Angola, e os de Maputo, Beira e Nacala, em Moçambique, reforçando as ligações entre o Atlântico e o Índico.
Para Valá, a cooperação regional pode ajudar a reduzir custos logísticos, ampliar os mercados e tornar os investimentos em infra-estruturas mais atractivos.
“Não invistam apenas em portos. Invistam no que os portos tornam possível”, apelou aos investidores.
A visão é que os corredores deixem de ser avaliados apenas pela sua capacidade de movimentar mercadorias e passem a ser considerados plataformas de desenvolvimento industrial, comércio e integração económica.
O desafio de transformar crescimento em prosperidade
A mensagem central do ministro é que a construção de estradas, portos e linhas ferroviárias representa apenas uma parte do trabalho. A transformação económica depende da capacidade de criar valor a partir dessas infra-estruturas.
“Não apenas estradas, mas cadeias de valor. Não apenas portos, mas plataformas de produção e investimento. Não apenas trânsito, mas transformação, desenvolvimento e prosperidade”, afirmou no encerramento da intervenção.
O desafio para Moçambique será garantir que a expansão da actividade logística seja acompanhada por mais investimento produtivo, maior participação das empresas nacionais, criação de emprego formal e diversificação das exportações.
A ambição é fazer dos corredores instrumentos de desenvolvimento que beneficiem tanto os operadores internacionais como os agricultores, os empresários e os trabalhadores moçambicanos.
Como resumiu Valá: “Moçambique está pronto para ser mais do que um país de passagem”.
A concretização dessa ambição dependerá, porém, da capacidade de transformar as oportunidades anunciadas em projectos executados, investimento produtivo e resultados mensuráveis para a economia.
O indicador decisivo não será apenas a quantidade de mercadorias que atravessa Moçambique, mas o valor económico, as empresas e os empregos que permanecem no país.




