Exclusivo: José Maria Neves olha para o futuro antes do anúncio da sua recandidatura

Senhor Presidente, está a chegar ao fim do seu primeiro mandato. Se tivesse de fazer hoje um balanço destes cinco anos, qual foi a sua maior realização e qual foi a sua maior frustração? Houve momentos altos que têm a ver com grandes conferências que nós fizemos relacionados com os oceanos e com a Crioulidade.…
ebenhack/AP
Naquela que é a sua última grande entrevista antes de entrar no ciclo eleitoral, o Presidente de Cabo Verde fala sobre liderança, reformas, meritocracia, instituições e os desafios que marcarão a próxima década do arquipélago.
Líderes Uncategorized

Senhor Presidente, está a chegar ao fim do seu primeiro mandato. Se tivesse de fazer hoje um balanço destes cinco anos, qual foi a sua maior realização e qual foi a sua maior frustração?

Houve momentos altos que têm a ver com grandes conferências que nós fizemos relacionados com os oceanos e com a Crioulidade. Mas também há momentos extraordinariamente importantes como a Presidência na Ilha e a Presidência na Diáspora. Esses momentos permitiram ao Presidente dialogar com os partidos políticos, os autarcas, as autoridades locais, as igrejas, os sindicatos, as ONGs, enfim, toda a sociedade civil e as pessoas em geral, permitindo dar visibilidade aos principais desafios que se colocam às diferentes ilhas e municípios e catalisar a formação de políticas públicas orientadas para a solução dos problemas que afligem o país, a sociedade e as pessoas. De modo que há vários momentos que eu considero importantes.

E momentos frustrados?

Tivemos duas eleições autárquicas e legislativas, houve estabilidade institucional, boas condições de governabilidade e não há momentos que eu possa considerar de frustração. Para mim foi um mandato bem conseguido, foi relevante para o país, garantimos os fundamentais da democracia, houve estabilidade política e institucional e o país cresceu, houve momentos marcantes como a presença dos Tubarões Azuis na Copa do Mundo e a comemoração dos 50 anos da nossa independência.

Quando tomou posse, falou muito da necessidade de unir os cabo-verdianos e de exercer uma Presidência para todos. Sente que conseguiu cumprir esse objetivo? 

Há uma forte polarização, é um fenómeno que tem acontecido um pouco em todo o mundo, mas, no essencial, o país esteve unido em torno dos grandes desígnios nacionais. Não foi por acaso que conseguimos realizar as duas eleições, legislativas e autárquicas e também conseguir projectar uma imagem positiva do país na arena internacional com ganhos importantes no financiamento do nosso desenvolvimento e aumentamos a utilidade de Cabo Verde no mundo.

Mas Cabo Verde continua demasiado dividido politicamente…

Sim, há mais tensão, há mais polarização, mas, no essencial, Cabo Verde mantém-se unido em torno de tudo o que é desígnio nacional.

Foi primeiro-ministro durante 15 anos e depois Presidente da República. São funções muito diferentes. O que aprendeu sobre o exercício do poder enquanto Presidente que não sabia quando estava no Governo?

O governo é parte do jogo político e está num confronto permanente com os adversários políticos, com os atores das outras equipas políticas. Enquanto o Presidente da República, é árbitro e moderador do sistema, é uma actividade muito mais complexa e muito mais difícil, sobretudo numa pequena sociedade como a nossa. As diferenças são substanciais e quem exerce a função de primeiro-ministro, de um lado, conhece bem os meandros do funcionamento do sistema, mas posicionando-se como Presidente da República, tende a fazer uma aprendizagem na regulação e na moderação do sistema político existente.

Tem sido uma presidência muito interventiva na sociedade e também na política. Há quem veja isso como uma presidência próxima do cidadão e há quem considera que pudesse ultrapassar os limites do papel presidencial. Como responde a essas questões?

O Presidente está no campo político, o Presidente é um actor político e participa na formação da Vontade Política Nacional. Nestes cinco anos, o presidente tem de estar presente, tem de correr todo o campo do jogo político para poder fazer uma boa arbitragem, fazer as advertências no momento certo e sugerir, aconselhar quando são necessários. De todo o mandato, não há nenhum momento em que se pode dizer que o Presidente pisou o risco, não cumpriu a Constituição ou fez mais ou menos do que a Constituição permite. Mas era essencial ter um Presidente com energia suficiente para acompanhar mais de perto todo o jogo político e foi o que eu fiz nestes cinco anos.

Cabo Verde é frequentemente apresentado como uma referência democrática em África. Mas também enfrenta problemas sérios: emigração dos jovens, desemprego, habitação, desigualdades e dependência económica do exterior. O que mais o preocupa hoje no futuro do país?

Nós temos as mudanças climáticas, temos as assimetrias regionais, temos a mobilidade, particularmente de jovens, e temos o envelhecimento da população. Essas questões obrigam-nos a acelerar o ritmo de reformas e de transformação do país para podermos responder aos reptos que se colocam à sociedade cabo-verdiana. Se não acelerarmos o ritmo de transformação, se não formos muito mais eficientes na execução e muito mais eficazes nos resultados, se não sofisticarmos os processos decisórios, se não realizarmos reformas estruturais em muitos domínios, não conseguiremos garantir um crescimento inclusivo e ambientalmente sustentável e, consequentemente, garantir mais qualidade de vida, muito mais progresso e muito mais competitividade na nossa humanidade.

Portugal continua a ser um parceiro fundamental de Cabo Verde. Que relação gostaria de ver entre os dois países nos próximos anos? E há alguma coisa que Portugal possa, ou deva, fazer mais por Cabo Verde?

Com Portugal devemos manter uma cooperação estratégica, de excelência, que, aliás, temos tido desde a independência. Portugal é definitivamente um dos principais parceiros de Cabo Verde. Hoje, os eixos são os mesmos, educação, ensino superior, ciência, inovação, saúde, transição digital, transição energética, transportes, turismo, indústrias criativas. Mas, essencialmente, é fazer um upgrade de todos esses programas. Se antes mandávamos doentes para serem tratados em Portugal, hoje temos de formar especialistas para garantirem os tratamentos médicos em Cabo Verde. Se antes mandávamos jovens para cursos de licenciatura, hoje temos de pensar em programas de mestrados e doutoramento e cursos de especialização. Hoje, o que podemos dizer é que temos de sofisticar e fazer o upgrade dos diferentes domínios em que temos cooperado, abrangendo as áreas que têm sido importantes para o desenvolvimento de Cabo Verde, com ganhos mútuos para os dois países.

 Estamos perante um novo ciclo político e o país vai escolher um Presidente. O senhor já decidiu avançar para um segundo mandato? E, se sim, o que é que José Maria Neves quer fazer nos próximos cinco anos que ainda não conseguiu fazer neste primeiro mandato?

Bom, temos de primeiro decidir sobre o segundo mandato. No caso de ir para um segundo mandato, haverá muitos domínios em que teremos de melhorar o desempenho do Presidente da República. Os desafios serão com certeza novos, mas, no essencial, é reforçar a confiança mútua entre os diferentes atores políticos e procurar aprofundar consensos em torno de algumas questões que são essenciais para o futuro. Têm a ver com os transportes, com a educação, com a saúde, as relações externas e com toda a reforma do Estado, de modo a termos um Estado muito mais descentralizado e com o poder mais próximo da sociedade e dos cidadãos e com maior capacidade para a resolução dos problemas.Portanto, o Presidente deve manter a linha de uma presença em cada ilha do país, a diáspora, mas estar atento e fazer tudo para que o país comece a ganhar em todos os campos de atividade. Nós tivemos já grandes ganhos no domínio, por exemplo, do desporto, precisamos espalhar esses ganhos para todas as áreas e todos os domínios. E o presidente pode ser um catalisador desse processo de busca de entendimentos para a construção de pontes e para dar visibilidade a um conjunto de problemas, trabalhar para o agendamento desses problemas e para a construção de consensos visando um Cabo Verde muito melhor.

Depois de tantos anos na política, o que ainda o move? É o projeto político, o serviço ao país, ou há também uma vontade pessoal de deixar uma determinada marca na história de Cabo Verde?

Eu acho que governar Cabo Verde é uma questão eminentemente ética, no sentido em que é fundamental encontrar os consensos que são necessários, respeitar as regras do jogo e servir o bem comum. E a minha ideia de estar na política é, precisamente, essa ética da responsabilidade, a defesa permanente da democracia, das liberdades fundamentais, a defesa das regras do jogo, mas também a busca de consensos sobre as principais questões nacionais e uma orientação forte para o bem comum.

Acredita que Cabo Verde precisa de uma renovação geracional na sua liderança política e que talvez seja tempo de dar lugar a uma nova geração?

Em Cabo Verde tem havido uma grande circulação de políticos. Portanto, a elite política cabo-verdiana tem uma grande mobilidade e, portanto, basta ver, agora foram realizadas eleições, entrou uma nova geração de políticos no governo. Então, há uma permanente renovação e isso tem sido bom para as alternâncias políticas e para as mudanças que têm sido realizadas.

Se voltar a ser eleito, qual será a primeira grande batalha que gostaria de travar no segundo mandato?

Eu acho que a grande questão que nós teremos de conseguir em Cabo Verde é construir uma administração imparcial, distribuída no mérito e que esteja orientada para a resolução dos principais problemas que dizem respeito ao país. Uma administração voltada para resultados. Teremos de ter capacidade para mobilizar todas as competências e todas as capacidades nas ilhas e na diáspora, independentemente da filiação partidária ou das opções políticas de cada um. Se conseguirmos esta dinâmica, mobilizaremos energias suficientes para acelerar o ritmo de transformação do país e resolver os principais problemas nacionais.

 

 

Mais Artigos