A transformação da cana-de-açúcar em produtos derivados é apontada como uma das principais soluções para reduzir as perdas na produção, melhorar o aproveitamento da matéria-prima e aumentar o rendimento dos agricultores, avançou esta Quinta-feira, 08, na província do Bengo, o presidente de assembleia da cooperativa agrícola Kitumba Fula.
Em entrevista à Forbes África Lusófona, o responsável explicou que a produção de cana-de-açúcar tem apresentado resultados positivos e é realizada actualmente em grande escala, demonstrando existir capacidade produtiva suficiente para responder a uma procura maior e alimentar uma futura cadeia de transformação.
Apesar do potencial existente, detalhou Kitumba Fula, a cooperativa continua a enfrentar dificuldades relacionadas com o escoamento da produção.
A insuficiência de meios de transporte e as limitações das vias de acesso dificultam a colocação da cana nos mercados, fazendo com que parte da produção não seja comercializada em tempo útil.
De acordo com o dirigente, este cenário demonstra a necessidade de deixar de olhar para a cana apenas como uma matéria-prima destinada ao consumo directo e avançar para uma estratégia de transformação local.
Segundo explicou, quando os produtores não encontram compradores ou meios adequados para retirar a produção das zonas agrícolas, são obrigados a procurar alternativas para evitar que a cana se perca.
Entre as alternativas está a transformação artesanal da matéria-prima em derivados destinados ao consumo.
O presidente considera, no entanto, que estas iniciativas ainda são insuficientes perante o potencial produtivo da cooperativa, defendendo a criação de uma unidade de processamento capaz de absorver uma parte significativa da produção.
Fábrica pode aumentar valor da produção
A instalação de uma fábrica de transformação de cana permitiria, na perspectiva da cooperativa, criar uma cadeia de valor mais organizada, na qual o produtor deixaria de depender exclusivamente da venda da cana em estado bruto.
A transformação permitiria desenvolver diferentes produtos derivados e aumentar o valor comercial da matéria-prima, criando novas fontes de rendimento para os agricultores e oportunidades de negócio para outros agentes económicos ligados à cadeia produtiva.
A medida poderia igualmente contribuir para reduzir o desperdício, sobretudo nos períodos em que a produção supera a capacidade de absorção do mercado.
O dirigente entende que o desenvolvimento de uma indústria de transformação permitiria aproveitar melhor a produção existente, estimular o aumento das áreas cultivadas e criar condições para que os agricultores tenham maior previsibilidade na comercialização.
Fotos: Tom Carlos
“Quando muitas vezes não há saída”, explicou a responsável, os produtores procuram transformar a cana para evitar que o produto se perca.
A aposta na transformação poderá ainda permitir que a cooperativa evolua de uma actividade essencialmente agrícola para um modelo que combine produção, processamento e comercialização, aumentando a sua participação no valor gerado pela cadeia.
Potencial produtivo exige investimento
A cooperativa considera que existe potencial para elevar significativamente os actuais níveis de produção, desde que sejam criadas melhores condições de financiamento, transporte, infra-estruturas e comercialização.
O responsável referiu que a capacidade produtiva poderia alcançar volumes superiores aos actualmente registados, mas a concretização desse potencial depende de investimentos que permitam acompanhar o crescimento da produção.
Neste contexto, o financiamento é considerado um dos principais factores para a expansão da actividade.
Fula referiu que a cooperativa foi fundada há cerca de seis anos e, desde então, não beneficiou de financiamento, situação que tem condicionado a capacidade de investimento dos produtores.
A ausência de recursos financeiros limita, entre outros aspectos, a aquisição de equipamentos, a melhoria das infra-estruturas de produção e armazenamento e a criação de condições para a transformação da cana.
Escoamento continua a ser um dos maiores desafios
Embora a produção esteja a decorrer de forma considerada positiva, o escoamento permanece como um dos principais constrangimentos.
A dificuldade de transportar a produção para os centros de consumo reduz a capacidade dos agricultores de comercializarem a cana em boas condições e aumenta o risco de perdas.
Para a cooperativa, a resolução deste problema deve passar não apenas pela melhoria das estradas e disponibilidade de meios de transporte, mas também pela criação de estruturas de processamento próximas das zonas de produção.
Uma fábrica instalada junto às áreas produtoras permitiria transformar a cana antes do transporte para os mercados, reduzindo o volume e facilitando a movimentação dos produtos acabados.
A medida poderia ainda estimular a criação de pequenos negócios associados ao processamento, embalagem, distribuição e comercialização dos derivados da cana.
Cooperativa espera maior apoio em 2027
Para 2027, a cooperativa coloca como uma das principais prioridades o reforço do apoio das autoridades, com destaque para o financiamento e a melhoria das condições de mobilidade e acesso aos serviços básicos.
O responsável explicou que os membros da cooperativa enfrentam dificuldades de deslocação para municípios próximos, recorrendo frequentemente a outras localidades para aceder a serviços essenciais, incluindo assistência médica.
Na visão da organização, melhorar as condições das comunidades agrícolas é igualmente importante para garantir a continuidade e o crescimento da produção.
A cooperativa defende, por isso, uma intervenção integrada que combine apoio financeiro, melhoria das vias de acesso, facilitação do escoamento, assistência técnica e criação de condições para a transformação da produção.
A transformação da cana-de-açúcar surge, neste contexto, como uma oportunidade para passar de um modelo baseado essencialmente na produção e venda da matéria-prima para uma cadeia de maior valor acrescentado.
O produtor sustentou que a meta é aproveitar melhor aquilo que já é produzido, reduzir as perdas e transformar a capacidade agrícola existente numa actividade económica mais sustentável, geradora de rendimento e de novas oportunidades de negócio.
A aposta numa futura unidade de transformação poderá também contribuir para estimular a produção local, criar empregos e fortalecer a participação dos pequenos produtores na cadeia de valor da cana-de-açúcar, desde o cultivo até à transformação e comercialização.





