A possível aquisição de 40% da Odebrecht Engenharia & Construção (OEC) pela portuguesa Mota-Engil poderá representar muito mais do que uma operação societária entre duas construtoras. A concretizar-se, o negócio consolidará uma estratégia de expansão internacional assente na criação de um dos maiores ecossistemas lusófonos de infraestruturas, reforçando a posição da Mota-Engil no maior mercado da América Latina e projetando uma plataforma de atuação com presença relevante em África.
Segundo informações avançadas pela imprensa brasileira e portuguesa, a Mota-Engil está em negociações para adquirir uma participação minoritária na OEC, construtora que concluiu em março deste ano o seu processo de recuperação judicial, reduzindo o passivo de cerca de R$ 5 mil milhões (cerca de 864 milhões de euros) para aproximadamente R$ 110 milhões (cerca de 19 milhões de euros). A entrada de um novo acionista, porém, já estava prevista no plano de reestruturação da empresa, com o objetivo de financiar a expansão da atividade e não o pagamento aos credores.
A operação surge num momento em que a Mota-Engil acelera significativamente a sua presença no Brasil. Nos últimos meses, a construtora portuguesa conquistou projetos estratégicos, entre os quais a construção do túnel submerso entre Santos e Guarujá, avaliado em cerca de R$ 6,8 mil milhões (cerca de 1,17 mil milhões de euros), e integra o consórcio vencedor da concessão da Rota dos Sertões, um corredor rodoviário entre Pernambuco e Bahia que prevê investimentos superiores a R$ 4,4 mil milhões. (cerca de 760 milhões de euros). Paralelamente, continua interessada na aquisição da Bamin, empresa que controla a concessão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), bem como um projeto portuário em Ilhéus.
A eventual entrada na OEC permitirá à Mota-Engil ganhar acesso imediato a uma carteira de projectos avaliada em cerca de R$ 25 mil milhões (cerca de 4,32 mil milhões de euros), construída até ao final de 2025, reforçando a sua posição num mercado que prepara um novo ciclo de investimento em transportes, energia, saneamento e logística.
Uma parceria que ultrapassa o Brasil
Embora o foco imediato esteja no mercado brasileiro, a aproximação entre as duas empresas assenta numa relação construída ao longo de vários anos.
A Mota-Engil e a OEC têm colaborado em diferentes geografias, nomeadamente em África, onde ambas executam projetos de grande dimensão. Mais de 70% da carteira da construtora brasileira encontra-se atualmente fora do Brasil, com Angola a destacar-se como um dos principais mercados internacionais, através de obras ligadas à refinação, transporte de energia e infraestruturas.
Por outro lado, a presença africana da Mota-Engil vai muito além das obras rodoviárias tradicionais. Em Angola, o grupo participou na reabilitação de importantes infraestruturas ferroviárias, incluindo intervenções associadas ao Caminho de Ferro de Benguela, eixo central do atual Corredor do Lobito, uma das mais estratégicas plataformas logísticas de África para o transporte de minérios e mercadorias. Em Moçambique, destacou-se no desenvolvimento do Corredor de Nacala, um dos maiores projetos ferroviários da África Austral, reforçando a ligação entre as zonas mineiras do interior e os portos de exportação no Oceano Índico. Esta experiência em corredores logísticos de grande dimensão reforça a capacidade da empresa para participar em projetos integrados de transporte, energia e comércio em vários mercados emergentes.
Esta complementaridade geográfica poderá transformar a parceria numa plataforma de crescimento com forte presença nos mercados lusófonos, reunindo experiência em engenharia, capacidade financeira e conhecimento operacional em regiões consideradas estratégicas para o investimento em infraestruturas.
O fator China
Outro elemento relevante da operação é o potencial envolvimento da China Communications Construction Company (CCCC), que detém cerca de 32,4% da Mota-Engil e poderá apoiar financeiramente a aquisição.
Caso este cenário se confirme, a operação ganha uma dimensão geopolítica adicional. A CCCC é um dos maiores grupos mundiais de construção e infraestruturas e desempenha um papel central na estratégia chinesa de investimento internacional. O eventual financiamento da aquisição reforçaria a capacidade da Mota-Engil para participar em grandes concessões e projetos de engenharia de elevada complexidade, tanto no Brasil como noutros mercados emergentes.
Um novo ciclo para a engenharia lusófona
Mais do que uma simples aquisição, a entrada da Mota-Engil na OEC poderá simbolizar uma mudança no mapa das grandes empresas de engenharia de língua portuguesa. Depois de anos marcados pela reestruturação da antiga Odebrecht, a construtora brasileira procura reposicionar-se num setor que volta a beneficiar de investimentos públicos e privados em infraestrutura. Para a Mota-Engil, a operação representa a oportunidade de consolidar uma presença de longo prazo num mercado com enorme potencial de crescimento, combinando ativos, carteira de projetos e capacidade de execução.
Se o negócio avançar, poderá nascer um dos maiores polos de engenharia e construção do espaço lusófono, com capacidade para disputar grandes concessões no Brasil, reforçar a presença em África e explorar novas oportunidades na América Latina, beneficiando da complementaridade entre duas empresas que, apesar das diferentes trajetórias, partilham décadas de experiência em mercados complexos e de elevado potencial.




