A Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA) só poderá alcançar plenamente os seus objectivos se os países africanos forem capazes de construir uma rede de corredores logísticos eficientes, harmonizar procedimentos fronteiriços e reforçar a cooperação entre governos, operadores e investidores, defendeu esta Segunda-feira, em Luanda, o director executivo do Angola Hub, Transport & Logistics Summit, António Santana.
Falando na abertura da segunda edição do evento, António Santana colocou a logística no centro do processo de integração económica africana, considerando que a criação de um mercado continental não depende apenas da existência de acordos comerciais, mas também da capacidade efectiva de movimentar mercadorias de forma rápida, segura e competitiva entre os diferentes países.
“A Zona de Comércio Livre Continental Africana só será real quando a logística a tornar real”, afirmou o responsável, numa intervenção em que destacou a necessidade de transformar os compromissos de integração regional em corredores capazes de ligar zonas de produção, portos, centros industriais e mercados consumidores.
Para António Santana, a existência de fronteiras nacionais não deve representar um obstáculo à circulação de bens no continente. Pelo contrário, defendeu que a integração económica exige mecanismos que permitam ultrapassar barreiras logísticas e administrativas, através da harmonização de procedimentos e do reforço da confiança entre os operadores.
“A logística não se faz com fronteiras. Faz-se com corredores, com harmonização, com confiança entre operadores e com plataformas onde os governos e as empresas da região se encontram”, referiu.
A intervenção ocorreu no quadro da segunda edição do Angola Hub, Transport & Logistics Summit, encontro que reúne representantes governamentais, operadores logísticos, investidores, instituições financeiras e parceiros regionais para discutir o futuro dos transportes, da logística e dos corredores económicos africanos.
Integração comercial depende da conectividade
Na perspectiva apresentada pelo director executivo do Summit, a ZCLCA representa uma oportunidade para aumentar o comércio intra-africano, mas a sua implementação efectiva exige que os países disponham de infra-estruturas capazes de suportar o aumento dos fluxos comerciais.
A redução das barreiras comerciais, por si só, não garante que os produtos possam chegar aos mercados de destino em condições competitivas. Os custos de transporte, o tempo de circulação das mercadorias, a eficiência dos portos, a qualidade das estradas e linhas ferroviárias e os procedimentos nas fronteiras constituem factores determinantes para a competitividade das empresas africanas.
É neste contexto que António Santana defende uma maior articulação entre os diferentes actores da cadeia logística, desde os governos e autoridades reguladoras até aos operadores de transporte, empresas, instituições financeiras e investidores.
De acordo com o responsável, os corredores económicos devem ser concebidos como sistemas integrados, capazes de conectar diferentes países e regiões e não apenas como infra-estruturas isoladas dentro de cada território.
A construção de uma rede continental de transportes e logística, segundo a visão apresentada no Summit, poderá contribuir para reduzir custos, encurtar tempos de trânsito e facilitar o acesso dos produtores africanos a novos mercados.
Angola procura reforçar posição estratégica
António Santama destacou igualmente o posicionamento de Angola como uma das portas de entrada e saída para os mercados do interior do continente, considerando que o país reúne activos estratégicos que podem contribuir para a integração logística regional.
Entre esses activos, apontou a costa atlântica com mais de 1.600 quilómetros, os portos nacionais, o Corredor do Lobito, a ligação à República Democrática do Congo e à Zâmbia, o novo aeroporto internacional e a recuperação das redes rodoviária e ferroviária.
Na sua perspectiva, a combinação destas infra-estruturas pode permitir a Angola desempenhar um papel mais relevante nas cadeias logísticas africanas e no escoamento de mercadorias entre o Atlântico e o interior do continente.
“A Angola não é apenas um mercado. Angola é uma posição”, assegurou António Santana, destacando a localização geográfica do país e o potencial das infra-estruturas em desenvolvimento.
O director executivo chamou ainda a atenção para o impacto regional das decisões tomadas em Angola. Segundo explicou, a eficiência de um corredor logístico não beneficia apenas o país onde está localizado, podendo influenciar directamente os custos de transporte e a competitividade das economias vizinhas.
“Cada decisão tomada nesta sala não é apenas uma decisão angolana”, disse.
Na sua leitura, a melhoria das ligações logísticas pode influenciar o custo de transporte de um contentor para Lusaka, o tempo necessário para a exportação de minerais provenientes da região do Katanga e a capacidade de produtores da Namíbia ou de Moçambique alcançarem os mercados do Atlântico.
Corredor do Lobito no centro da conectividade regional
Entre as infra-estruturas destacadas durante a intervenção esteve o Corredor do Lobito, considerado um dos principais activos logísticos de Angola para reforçar as ligações entre a costa atlântica e os mercados da África Central e Austral.
A ligação ferroviária e portuária associada ao corredor cria condições para aproximar regiões produtoras do interior dos mercados internacionais, reduzindo distâncias e criando alternativas para o transporte de mercadorias.
No contexto da ZCLCA, os corredores deste tipo podem assumir importância adicional, uma vez que permitem conectar países sem litoral aos portos e às rotas internacionais de comércio.
A perspectiva apresentada por António Santana é que Angola deve aproveitar a sua localização e infra-estruturas para participar de forma mais activa na construção de uma rede continental de comércio e transporte.

A lógica, segundo defendeu, deve passar de uma visão exclusivamente nacional para uma abordagem regional, na qual estradas, ferrovias, portos, aeroportos, plataformas logísticas e postos fronteiriços funcionem de forma articulada.
Harmonização de procedimentos
Outro aspecto considerado fundamental para a concretização da ZCLCA é a harmonização dos procedimentos utilizados pelos diferentes países.
António Santana defendeu que a existência de infra-estruturas modernas não será suficiente se os operadores continuarem a enfrentar processos administrativos complexos, diferentes exigências documentais e atrasos nas fronteiras.
A integração logística exige, por isso, maior coordenação entre as autoridades dos países envolvidos nos corredores, de forma a reduzir os tempos de trânsito e tornar as operações mais previsíveis para as empresas.
A confiança entre operadores e instituições também foi apontada como elemento essencial para o funcionamento dos corredores.
Neste sentido, o Angola Hub pretende funcionar como uma plataforma de aproximação entre os diferentes intervenientes, criando espaço para o diálogo sobre os constrangimentos existentes e para a identificação de soluções que possam ser transformadas em projectos e investimentos.
Sector privado assegura 70% do financiamento do Summit
A participação do sector privado constitui outra dimensão destacada por António Santana.
Segundo o director executivo, cerca de 70% do financiamento da segunda edição do Angola Hub, Transport & Logistics Summit é assegurado por parceiros privados, facto que considerou demonstrativo do interesse empresarial em participar na discussão sobre o futuro do sector.
Para o responsável, o nível de financiamento privado representa também um sinal de confiança no potencial do sector dos transportes e da logística e na capacidade do evento de aproximar empresas, investidores e decisores públicos.
“Um Summit desta dimensão não se constrói com decreto. Constrói-se com quem decide investir”, destacou.
O evento pretende, por isso, ultrapassar a dimensão de uma conferência tradicional e criar oportunidades para a concretização de negócios, contratos e parcerias.
Hub de negócios procura transformar contactos em investimentos
A segunda edição conta com um hub de negócios, concebido para aproximar empresas e investidores e transformar os contactos estabelecidos durante o evento em oportunidades concretas.
Segundo António Santama, o objectivo é criar condições para que as discussões sobre logística, transportes e corredores económicos possam resultar em contratos, parcerias e investimentos.
O programa inclui igualmente painéis internacionais dedicados aos corredores logísticos africanos, prémios destinados a distinguir iniciativas de excelência no sector e uma bolsa de inovação.
A bolsa conta com o acompanhamento do Grupo Banco Mundial e da IFC, permitindo aproximar start-ups e soluções tecnológicas dos desafios enfrentados pelo sector.
Participação dos países da SADC
A dimensão regional do encontro é reforçada pela presença de start-ups provenientes dos 16 países que integram a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
A participação destas empresas pretende colocar em contacto soluções inovadoras com operadores e instituições que actuam nos sectores dos transportes, logística e infra-estruturas.
A iniciativa insere-se numa estratégia mais ampla de promoção da inovação como instrumento para melhorar a eficiência das cadeias logísticas africanas.
Para António Santana, a construção de uma logística continental competitiva exige não apenas grandes infra-estruturas, mas também tecnologia, inovação e capacidade empresarial.
Mobilidade eléctrica integra agenda
A segunda edição do Summit contempla ainda uma componente ligada à mobilidade eléctrica, com veículos eléctricos colocados à disposição das delegações durante o evento.
A iniciativa surge num contexto de transformação do sector dos transportes, marcado pela procura de soluções mais eficientes e sustentáveis e pela introdução gradual de novas tecnologias de mobilidade.
A presença de empresas ligadas à mobilidade, energia, logística, banca, portos e infra-estruturas reforça a abrangência do encontro e a intenção de criar uma plataforma transversal para discussão dos desafios do sector.
Angola Hub quer consolidar plataforma regional
Ao fazer o balanço da evolução entre a primeira e a segunda edição, António Santana considerou que o evento passou de uma fase inicial de abertura de diálogo para uma etapa mais orientada para a criação de corredores, parcerias e oportunidades de investimento.
“A primeira edição abriu uma porta, a segunda transformou-a num corredor”, sustentou.
A segunda edição do Angola Hub pretende, assim, posicionar o país como espaço de encontro entre diferentes actores da logística africana e reforçar o debate sobre a integração regional.
A mensagem central deixada pelo director executivo é que a Zona de Comércio Livre Continental Africana precisa de uma arquitectura logística capaz de sustentar o aumento das trocas comerciais entre os países.
Nesse sentido, a criação de corredores eficientes, a harmonização de procedimentos, a cooperação entre operadores e governos, a mobilização de financiamento privado e o investimento em inovação são apontados como elementos necessários para transformar a integração comercial africana em fluxos efectivos de mercadorias.
Para Angola, o desafio passa por aproveitar a sua posição atlântica, as infra-estruturas portuárias e ferroviárias e, sobretudo, o potencial do Corredor do Lobito para se afirmar como uma das plataformas de ligação entre o mercado internacional e o interior do continente.
A visão apresentada no Angola Hub coloca, desta forma, a logística no centro da agenda de integração africana: sem corredores que funcionem, fronteiras mais eficientes e ligações entre os mercados, a Zona de Comércio Livre Continental Africana terá dificuldades em materializar todo o seu potencial.





